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Pará de Minas, 9 de Setembro de 200?; O.M.
"Tive conhecimento da nova gnomonia por uma conversa de café. O poeta Augusto Frederico Schmidt e o compositor Ovalle debatiam animadamente um ponto da nossa situação interna, particularmente a ação de certo homem político, quando o segundo, inclinando-se para a frente em atitude de advertência, colocou a mão direita no joelho do primeiro e proferiu gravemente: - Seu Schmidt, vá por mim! Aquele sujeito é do exército do Pará. Do exército do Pará? Que exército era esse que eu desconhecia? Ovalle explicou: o exército do Pará é formado por esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político. Compreendi. O nome Pará não implica desdouro, senão honra para o grande Estado, torrão natal de homem-símbolo ou Anjo da grande categoria. O meu Pernambuco tem dado muita gente para o exército do Pará, talvez os seus soldados mais típicos. Da categoria de exército do Pará passamos às demais, que são quatro, abrangendo em linhas gerais os principais tipos de caracteres humanos: os Dantas, os Kernianos, os Onésimos e os Mozarlescos. Os Dantas
são os bons (toda a gente quer ser Dantas), os homens de ânimo puro,
nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso da vida, cordatos e
modestos, ainda quando tenham consciência do próprio valor. Quem deu
nome a este grupo foi o jovem jornalista San Tiago Dantas, cuja natureza
aliás vai ser questão de debate no próximo 1º congresso na Nova
Gnomonia, porque a muitos iniciados parece errada a categoria de Anjo
atribuída ao sr. San Tiago (alguns o classificaram no exército do Pará).
Não sofre dúvida que o senhor Prudente de Morais, neto (não o político
residente Os
Kernianos são os impulsivos por excelência. Indivíduos de bom coração,
capazes de grande sacrifício pelos outros, deixam-se no entanto
arrastar às vezes à prática dos atos mais condenáveis, não por
maldade, mas por um impulso irresistível de cólera: ilustra-o bem o
caso passado com um kerniano Difíceis de definir, sem magoar toda a classe, esses caracteres tão interessantes que são os Mozarlescos. Em primeiro lugar – por que assim são denominados? Os Mozarlescos são pessoas que se exprimem ou obram de molde a fornecer aos que os observam uma impressão de coisas consideráveis, ao que todavia não corresponde o conteúdo das suas palavras ou das suas ações. São homens de bem. Acreditam no sufrágio universal. Lêem os ensaios econômicos do sr. Mário Guedes. Manifestam decidido pendor pela pedagogia. Mas repito: por que Mozarlescos? O nome não pode derivar de Mozart, Wolfgang Amadeu, o grande. Este foi um dos tipos mais quintessenciados de Dantas, exemplar verdadeiramente único porque era um Dantas que se apresentava sob as espécies mais infantis e angélicas, naquele extremo limite em que os Dantas confinam de um lado com os Kernianos e por outro com os Onésimos, de que trataremos a seguir. Se houve alguém isento de Mozarlesco por causa da companhia do conselheiro Acácio, do Professor Everaldo Backeuser e outros Anjos classificados nessa categoria. No entanto há formas extremamente sutis e refinadas de Mozarlismos. O grande pintor Cícero Dias, apesar de se revoltar com a classificação (pretende ser um Dantas, embora dê em geral a impressão de Kerniano) é afinal de contas um Mozarlesco, como se depreende bem das suas luas lacrimejantes e da concepção da morte nos seus quadros. Guiraldes, o grande poeta argentino, autor de Don Segundo Sombra, a melhor obra de ficção sul-americana, sentindo-se morrer pediu uma dose de whisky. Como? Whisky na hora por excelência difícil e grave? E Guiraldes explicou aos parentes e amigos que precisava de muita coragem, o caso era muito sério: __ “Ahora hay que hablar com Dios!” Este, sim, não tinha nada de Mozarlesco. Restam os Onésimos. O anjo da classe é um cavalheiro desse nome, que acercando-se abruptamente de uma roda de Dantas ligados pelas mais estreitas afinidades e que debatiam com o mais puro entusiasmo a questão da salvação do país pelo preparo das elites no sentido neotomista, lançou um frio indescritível na roda, causando evidente mal-estar. O Onésimo onde aparece é assim: duvida, sorri, desaponta; diante dele ninguém tem coragem de chorar. O seu sense of humour sempre vigilante é o terror dos Mozarlescos avisados. Não é que o faça por maldade: os Onésimos não são maus. O drama íntimo dos Onésimos é não sentirem entusiasmo por nada, não encontrarem nunca uma finalidade na vida. Não obstante, se as circunstâncias os colocam inesperadamente num posto de responsabilidade, podem atuar (não todos, é verdade) com o mais inflexível senso do dever. O sr. Gilberto Freyre, por exemplo, é Onésimo. Em geral os humoristas são Onésimos. Não os humoristas nacionais, que esses pertencem todos ao exército do Pará (os srs. Mendes Fradique, Raul Pederneiras, Luis Peixoto, etc. Aporelli faz exceção, é Dantas). Mas os grandes humoristas, Sterne, Swift, Heine são Onésimos. O sr. João Ribeiro é um exemplo muito curioso de Onésimo. O escritor paulista Couto de Barros, outro. Eis em linhas gerais o arcabouço do novo sistema. Cumpre advertir que os tipos puros são raríssimos. Um Dantas pode revelar traços de Onésimos, de Mozarlesco, de Kerniano e até mesmo (mas isso raramente) de exército do Pará. Todavia um Mozarlesco nunca se revela Onésimo, salvo na capacidade de dar azar, o que é também atributo Onésimo. O que determina em última análise a classificação é a dominante. Convém igualmente salientar que do exército do Pará podem fazer parte tipos superiores da humanidade. Santo Inácio de Loiola e Anchieta, o padre Vieira, o padre Leonel da Franca, por exemplo, eram do exército do Pará. Para mostrar a complexidade dos problemas ligados a esse ramo novo de pesquisas, basta citar algumas obras mais notáveis da sua rica bibliografia: “Categorias
gnomônicas” (Pedro Dantas); Manuel Bandeira [in: Crônicas da Província do Brasil*] * O mesmo Bandeira, no início dos anos 1930, andou criando uma classificação das cidades brasileiras em gordas e magras, como se mulheres fossem - relata-nos Humberto Werneck. O poeta empacou na capital mineira, que tinha então pouco mais de trinta anos de existência: "Belo Horizonte veio me atrapalhar. É gorda ou magra? Difícil de resolver como problema de xadrez em cinco jogadas...". Ao cabo de "apertadas cogitações", Bandeira concluiu, mineiramente, que "Belo Horizonte não é magra nem gorda: Belo Horizonte é ...miss".
EIS A NOVA GNOMONIA CUJO ARTÍFICE FÔRA O SÃO SUJO,
Recapitulação: Exército
do Pará Para o memorialista nosso conterrâneo Pedro Nava, haveria uma categoria suplementar, os "Caetanos". Seu Anjo seria o poeta - outro honorável compatrício - Emílio Moura. “Ser Caetano é como ser mineiro, num átimo se nota: algo no ar e nos olhos, no modo de falar e de buscar nas coisas o que as coisas subtraem a quem não sabe olhá-las no âmago mais âmago...” De pronto, não somente aderimos ao Caetanismo (que figure em nosso estatuto pós-neognomônico!) como, distintos geralistas que somos, a ele decantamos lôas e salamaleques.
EM ASSIM SENDO, A ACADEMIA PETALÓGICA MINEIRA DECLARA, A TÍTULO OFICIAL, QUE ADOTA, PROTO- REFERENCIAL- MENTE, A NOVA GNOMONIA - NÃO SEM ANTES QUESTIONAR- SE DOUBLEMENT: I - QUAL TERÁ SIDO A 'ANTIQUA' GNOMONIA? (CABERIA A NÓS, PETALÓGICOS MINEIROS, - NA TRANSVERSAL DOS TEMPOS - INAUGURÁ- LA?) Não exatamente. A
Nova Gnomonia fôra copiada de alfarrábios produzidos por padres do século
XII. O então jovem Sérgio Buarque de Hollanda cria que sim. Há um artigo intitulado ‘Antiqua & Nova Gnomonia’ cujo autor revela-se nosso saudoso Barão D’Ascurra (pseudônimo tanto utilizado por Buarque? quanto pelo filólogo carioca Saul Borges Carneiro? que morara em ladeira do Ascurra, no bairro do Cosme Velho). Citado
A Gnomonia teria sido levada, segundo o mesmo Barão, para terras de Espanha e Portugal pelo árabe Alcafif, que ensinou em Salamanca, onde, já em provecta idade, “em negra melancolia se finou”, depois de haver flagrado a esposa, “a meyga e fermosa Cali Beb, em conversaçoens deshonestas com hum christam.” Teve tempo, em todo caso, de consolidar os “preceptos, doctrinas, ditos, & usanças da antígua Gnomonia” nas páginas do Tractado de Cabala, Artes Mágicas, Sortilégios, Alchimia, Medicinas, Estrologia, & demais conhecenças da humanal, terreal, & celestial composiçam, tiradas em grande parte do Talmud de Babylonia, de autoria do rabi Issac Ben Bazoque e publicado em Leiria no ano de 1499. Ao longo de seu capítulo XXXV (De como se conhocem as perfeyçoens, partes, & manhas dos homens, & molheres, póla conjuncçam das pranetas na hora em que foram paridos, & como se hão de poer em consonância com as cinco taboas da Gnomonia), nos é revelado que os seres humanos se dividem em “Sabbat”, “Seraphinica”, “Bombarda”, “Oxymelesca” ou “Santomé” – em linguagem ovalle-schmidtiana, respectivamente Exército do Pará, Dantas, Kerniano, Mozarlesco e Onésimo!! Tamanho achado agradecemos ao já citado jornalista Humberto Werneck, que, damos fé, & mesmo sem o/a ciência ter, se faz présence spirituelle em nossa belorizontina Academia. Com base na conjunção planetária, teria Issac predito que o futuro rei Dom Manuel, o Venturoso, seria Exército do Pará, ou sabbat, “& o foi.” O grande Vasco da Gama, que se jactava de ser Dantas, ou seraphinico, veio a saber, pelo sábio Abraham Zacuto, que na verdade pertencia ao mesmo Exército. O que se sucedeu à desditosa Inês de Castro, suposta seraphinica que o rabi confirmou como sendo também sabbat. No tempo de Luís de Camões, informa nosso heróico Barão D’Ascurra, a Gnomonia já estava praticamente extirpada de Portugal, pois a Santa Inquisição a tinha na conta de prática de mouros e judeus. O cristão novo Gil Eannes Gouvêa, que cometeu o desvario de dizer que o Papa Leão X poderia ser santomé, ou onésimo, “houve de comparecer em auto de fée, & hi foy chammuscado como todolos preceptos, qual gordo barocinho”. Assim
perseguida, mergulhou a Gnomonia em quatro séculos de esquecimento até
ser “novamente alevantada, & reanimada, graças aa sabença, &
aos cuydados daquelle magnífico pessychologo, mestre Joam Pechvogel,
lente na Universidade de Heidelberg, em Allemanha, o qual hi fundou a
‘Confraria pera estudo, meditaçam, & dilataçam da Nova Gnomonia’. A diferença entre as duas doutrinas é que a antiga, frisa Werneck, se baseia na astrologia e a segunda “na conhecença do humanal sprito, ou pessychologia, como soem dizer modernos”. OBS.:
Aos portadores de fino faro historiográfico; presume-se, por supuesto,
que o verdadeiro, ‘original’ Barão d’Ascurra!!, fôra o f-i-c-t-í-c-i-o? ex-fidalgo
da Casa Imperial João Ventura Carrazedo de Mendonça e Silva. (CABERIA A NÓS, PETALÓGICOS MINEIROS, REINAUGURÁ- LA? UMA PÓS-NEOGNOMONIA - TAL QUAL OS CRONÓPIOS, & FAMAS, & ESPERANÇAS... DO ARGENTINO CORTÁZAR? - A SER DADA À LUZ NO/DO SÉCULO XXI?) II - GNOMONIA (NÃO VELHA NEM NOVA) É, PERDOEM NOSSA ETIMOLÓGICA BOUTADE, UM TIPO DE F-U-N-G-O?
(Tal nicho petalógico serve de homenagem ao pródigo geralista Humberto Werneck e, insopitavelmente, a Don Jayme Rojas de Aragon & Ovalle)
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